Recorte da moda sustentável no Rio de Janeiro

O carioca adora um fast fashion (que o digam as filas gigantes pós-lançamento – e que perduram até hoje – da Forever 21, as parcerias com estilistas da C&A, o sale da Zara) e não mede esforços (nem crédito) para consumir o it-alguma-coisa do momento – geralmente, importado da gringa. Mercados populares e de rua com réplicas de bolsas da Louis Vuitton, Chanel e Burberry (só para citar as mais comuns) made in China são comuns no apagar das luzes em vários bairros.

Em paralelo, a produção artesanal no Rio de Janeiro vem crescendo e sendo valorizada nos últimos cinco anos. Mercados de produtores e estilistas independentes ganharam status de experiência, convivência e até networking.

Some-se a isso a criação do Fashion Revolution, em Londres, pelas designers e ativistas Carry Somers e Orsola de Castro. O movimento tem o objetivo de informar e conscientizar os envolvidos no fashion business para evitar mais acidentes como o colapso do Rana Plaza, em Bangladesh (edifício que abrigava diversas fábricas de roupas que produziam, em larga escala, para renomadas marcas globais. A catástrofe deixou mais de 1.133 trabalhadores têxteis mortos e outros 2.500 feridos), e tornar o mercado fashion mais seguro, sustentável e humano.

O Fashion Revolution cresceu e ganhou apoios luxuosos. A britânica Vivienne Westwood, que, desde a época do punk incorporava às suas coleções mensagens de ativismo e insatisfação com as regras de conduta de uma sociedade desigual e intolerante, começou a agir com o mesmo entusiasmo em prol de uma moda menos insustentável.

Ela passa a questionar o consumo desenfreado, criar e apoiar campanhas ambientais – como sua Climate Revolution e outras tantas em defesa ao meio ambiente. Sua frase “Buy Less, Choose Well, Make It Last” (Compre Menos, Escolha Melhor, Faça Durar), já é lema entre os defensores da moda slow e do consumo consciente.

A estilista Eloisa Arturo, representante do movimento Fashion Revolution no Brasil, aposta na sensibilização e conscientização do consumidor. Exigir mais transparência das marcas sobre o processo de produção. Entender que somos responsáveis por fazer isso mudar”, afirma a estilista. “Maneiras de consumir e matérias primas também devem ser repensadas. Há um problema sistêmico na moda, que envolve produção, consumo e descarte”.

Como possível alternativa, ela propõe a reflexão na hora da compra (“realmente preciso disso?”), se informar sobre o que está comprando, qual a origem da roupa, e quanto tempo você poderá usá-la. “Também é possível transformar suas roupas, organizar feiras de trocas com as(os) amigas(os). Não acredito que o boicote a essa ou aquela marca funcione, e sim a consciência”.

As hashtags #whomademyclothes e #quemfezminharoupa ou #comprodequemfaz (que lançou um manifesto e tem um blog super bacana aqui) ajudou a espalhar o conceito no Brasil, em especial, nos nichos de moda brasileiros, em especial, o carioca, o paulista e o mineiro.

Além da consciência, mudou também o bolso. Há o cenário de crise que assola o país e o mundo. Lojas fechando as portas diariamente. Quem sobreviver, deverá apostar na criatividade, surpreender, e conseguir chegar ao consumidor com propostas realmente boas, conscientes e inovadoras.

Informação, transparência e empatia

Uma das iniciativas de moda sustentável e consumo consciente no Rio de Janeiro que tem trabalhado a criatividade e a atemporalidade nos seus produtos é a marca Gabriela Mazepa. A estilista curitibana, que tem um ateliê no Rio, onde mora, (des)costura e transforma com sua marca, reaproveitando o que já está pronto e “abrasileirando” suas criações, para que cada uma delas carregue sua própria história.


Ela chegou a fazer parceria com uma das maiores confeccções do Sri Lanka, transformando peças com pequenos defeitos e coleções passadas em roupas e acessórios novos. Seu talento com o reaproveitamento na moda foi reconhecido no Prêmio Brasil Criativo, onde foi semifinalista. Ela também oferece oficinas de re-roupa (fazer uma reciclagem da roupa que você já tem e não usa mais, transformando-a em uma nova produção) periodicamente. Vale acompanhar as datas dos workshops!

Na mesma linha, a Lusco Fusco, de Débora Nardello, trabalha com o upcycling. Sua base é o aproveitamento total de tecidos e retalhos vindos de confecções, para o mínimo possível de desperdício e o apoio à mão de obra local.

Além da criatividade, a Lusco nos mostra a importância da informação para o consumo. Nardello mantém um blog da marca onde escreve sobre os conceitos da moda sustentável e o consumo consciente. Nesse ano, lançou também o fanzine Semente, uma publicação independente que aborda moda, design e sustentabilidade mostrando projetos sustentáveis que estão fazendo a diferença pelo Brasil.

A Zerezes desenvolve e produz óculos de sol como veiculo de experimentação com materiais inusitados, que não só carregam historias mas também materializam práticas responsáveis e justas.


Criada em 2012, a marca utiliza materiais de baixo impacto ambiental e um design além das sazonalidades da moda. Resgata técnicas manuais não frequentes na produção de óculos escuros e colocando as pessoas como foco central - da relação interpessoal com os produtores ao serviço de apoio próximo e transparente com os clientes. Essas histórias podem ser lidas no
blog da loja virtual.

 

A matéria-prima também entra nesse conceito pela Pano Digital, a primeira empresa de estamparia têxtil digital-ecológica do Rio de Janeiro, com lojas no bairro de São Cristóvão e na cidade de Petrópolis. Utiliza corantes à base de água, com certificação internacional oeko-tex. Também utiliza tecidos 100% algodão reciclados e impressos por tecnologia digital que, além da moda, atendem a decoração e comunicação visual, como bolsas e sacolas ecológicas, banners, painéis, faixas, estofados, entre outros.

Ah, sim: muitas vezes, eles trabalham com upcycling dos próprios tecidos oferecidos pelos clientes.

A ONG Pipa Social , que tem uma sede no Morro Santa Marta, agrega artesãos, estilistas, costureiros que moram em comunidades. Com a proposta de inovar o Terceiro Setor (ao promover a qualificação profissional de empreendedores de baixa renda), a Pipa compra os produtos dessas pessoas e vendem por um valor justo. O shopping Rio Sul vai abrir uma pop up store para a ONG vender seus produtos a partir desse mês. Fique ligado!

Algumas produções da Pipa Social. Não são lindas?

 

Conheça o trabalho nesse vídeo.

E vocês? De que forma estão usando a criatividade para consumir moda com consciência?

Imagens: Divulgação

Colaborou: Beatriz Corrêa

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Divulgado no TrendNotes por: Carolina Landi

Jornalista carioca com alma de artista e bailarina nas (poucas) horas vagas. Gosta do pop ao erudito, em todos os sentidos e artes. Acredita em empatia e sincronicidade. Curiosa, quer viver várias vidas nessa existência.

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