TN Entrevista: Salomé Areias (Fashion Revolution Portugal)

Direto de Lisboa, Mariana Carvalho conversou com a coordenadora do Fashion Revolution em Portugal, Salomé Areias, sobre moda e consumo consciente na terrinha. Salomé, que é professora de Design de Moda numa escola na província de Guangdong, na China, foi responsável pela vinda da Fashion Revolution Week (que aconteceu em abril) para o país.

A designer Salomé Areias

TN: Como está o movimento da moda consciente em Portugal?

Salomé: Já existem alguns movimentos, como Green Fest (voltado para ecologia) e o Design Show, ligados à sustentabilidade de uma forma macro. Os primeiros eventos relacionados à moda sustentável começaram esse ano, no escopo do Fashion Revolution e o Fast Talks, que algumas vezes, abordam o tema.  Mas acredito que as pessoas ligadas à área (de moda) é que precisam fazer esse caminho.

Não tínhamos equipe em Portugal, o Fashion Revolution era apenas online. Esse ano, tivemos uma procura muito grande pessoas interessadas em participar, ajudar e com isso foi possível realizar os eventos (acompanhe no Facebook do Fashion Revolution Portugal). Conseguimos fazer uma uma semana inteira e um evento para cada dia (na ocasião do Fashion Revolution Day, em 24 de abril).

TN: Quais os desafios de produzir e consumir de maneira consciente hoje no país?

Salomé: Temos mais consumidores conscientes do que temos de marca (consciente). Aqui, temos o cuidado de deixar o produto o mais artesanal possível e não massificar, manter técnicas antigas. Mas não temos muita oferta, o que acaba sendo mais difícil, embora o consumidor demande isso. Se as marcas percebem que há procura, elas vão correr atrás. Costumo dizer que o fato de sermos uma minoria não me assusta, muito pelo contrário. Sustentabilidade ainda não é uma escolha da maioria, mas o que se torna importante é qualidade do que essas minorias que estão a fazer. São pessoas proativas, de opinião, conhecem o produto, os processos, sabem questionar, e por isso, influenciam outras pessoas. É uma minoria que cresce devagar, mas que vai chegar longe. Para nós, a questão da tendência é um bom sinal, de que não seremos uma maioria que vai “morrer” rápido.

O consumidor português está mais aberto a fazer compras online. O grande desafio é termos designers criando coisas novas. Eles saem das faculdades conscientizados, mas não têm muito espaço no mercado porque a indústria da moda acaba sendo monopolizada pelas grandes corporações de fast fashion. Se um novo designer quer fazer uma coleção de cem peças, nenhuma fábrica vai querer fazer, pois estes não iriam mudar moldes, disposição das costureiras e etc por “apenas” 100 peças. E depois, eles querem produzir manualmente, porém, com várias costureiras em pontos diferentes do país. Elas, por sua vez, vão fazer peças diferentes porque não estão ajustadas em uma indústria de estandardização, onde é feito o molde e elas só tem que costurar - estas são boas costureiras antigas, que elas mesmas fazem o molde, as medidas e sempre vai resultar num produto diferente. Sem falar do tempo de produção e os custos.

Temos um gap enorme entre um artesão e a fábrica. Tem de haver uma procura muito grande entre os consumidores para abrir portas aos novos designers e  poder abaixar o preço dos produtos sustentáveis.

TN: Exato, nuitas pessoas querem comprar produtos feitos de maneira ética, sustentável e exclusiva, mas esbarram na questão do preço, que é bem mais caro. O que você pensa sobre isso?

Salomé: Sim, mas tem outras soluções. É um mito que o produto sustentável será sempre mais caro, porque eventualmente, se houver procura, os sistemas se adaptam – se e os preços começam a baixar. No entanto, em Portugal, ainda não alcançamos uma classe média e uma classe pobre que cresce que precisa se vestir, porque moda é uma necessidade básica, apesar de as pessoas não acreditarem nisso. Enquanto esses produtos não chegam a elas, existem outras alternativas. Costumo dizer que a solução da troca é perfeita. A troca é uma algo que já fazermos entre o nosso círculo de amigos mais próximos. Precisamos quebrar esse mito de a troca de roupas, acessórios, sapatos, entre outros, não ser uma coisa ser bem vista.

Quanto mais pessoas fizerem essa troca, mas gente vai ter acesso a diversidade e economia. A troca não só facilita essa questão de termos uma peça “velha” que não queremos mais, mas também consegue responder a necessidade que temos, hoje em dia, de querer mudar constantemente. Resolve dois problemas. O meu guarda roupa, por exemplo, é feito bastante à base da troca.

Outra opção é para pessoas que gostam de aprender e fazer coisas em casa.

TN: No Brasil, o upcycling está em voga, com muitos cursos e workshops, e temos uma iniciativa chamada House of Bubbles, onde você paga por mês um valor e pode pegar número x de peças.

Salomé: O upcycling é interessante por ter se tornado uma moda dentro da tendência de consumo responsável. Isto é muito interessante, porque, no fundo, a pessoa não está a dar um valor especifico para a peça. Quando fizemos o swop market (“mercado de troca”, em tradução literal), as pessoas aqui não estão habituadas a trocar, e fizemos uma peça por uma peça. O valor da peça era dado pela sua necessidade. O que aconteceu é que ninguém levou as peças mais caras, ou seja, ninguém introduziu um sistema de capitalização da peça. Os casacos, tudo que era mais caro, ficou lá…com isso podemos perceber que, na economia compartilhada, o valor é diferente da economia capitalista, no sentido de capitalizar a peça. As pessoas que vão lá, doam a peça que não precisam e pegam a que precisam, independente do valor. E preenche a nossa necessidade de ter coisas novas.

O Fashion Revolution não está aqui para contrariar a cultura: temos muitos produtos, lançamos campanhas online, mas não estamos aqui para ir contra o consumidor ou contra as marcas, e sim saber como elas funcionam. Para ajudar, queremos que eles façam perguntas (quem fez minhas roupas?) para incentivá-las a querer saber mais para conquistar a autonomia crítica.

TN: No Brasil, ao longo dos anos, uma grande parcela da população teve acesso ao poder de compra pela primeira vez e fica difícil dizer que eles não podem consumir de forma desenfreada…

Salomé: Eu percebi isso na China, onde lecionei para alunos de Design de Moda. Eles tiveram um boom econômico nos últimos anos. A Geração Y, que no mundo ocidental é definida por zero materialismo, gratidão, quer co-criar negócios e estão ligadas a associações sem fins lucrativos, lá é definida pelo consumismo. Porém, são pessoas que defendem a tradição. Eles pouco (ou nada) sabem sobre as questões da indústria da moda, por exemplo.

TN: Eles não tem noção, na China, sobre a problemática da indústria da moda?

Salomé: Pelo menos no Sul da China, onde eu fiquei, dentro da província onde mais se produz fast fashion, não. Isso é tão irônico, porque o mundo inteiro sabe, e no próprio lugar (onde acontece) as pessoas não sabem. Mesmo no nível politico, é tudo tão abafado, uma falsa democracia que eles mesmos defendem, que as pessoas que estão trabalhando nas fábricas não tem formação para receber mais, não ha o sentido do limite mínimo, condições básicas. É assustador.

Como tudo é bloqueado, Facebook, Google, You Tube, eles não tem as informações do jeito nós temos. Muitas pessoas nem possuem TV, na nossa geração, porque recebem as informações online. Eles não têm acesso a nada disso. O mundo todo sabe, quer fazer algo a respeito, e eles mesmos não podem fazer nada porque não sabem o que acontece. É preciso primeiro que eles tenham acesso a essas informações para depois criar uma consciência, para criar coragem, para depois agir.

TN: Você chegou a visitar alguma fábrica?

Salomé: Não, mas tive acesso a depoimentos de alunos. Eles reconhecem que há um pagamento muito baixo, mas acham normal e justo, então, “não precisa mudar”. Eu considero que um dia o fast fashion terá de cair - porque um sistema econômico desse nível, no qual todos esses países que produziram para o resto do mundo (China, Índia, Bangladesh), um dia vão começar a ter poder de compra e também não vão quer só produzir para outros países, mas produzir localmente,  ter seus próprios designers, etc. E também porque não vão conseguir baixar ainda mais os preços. Também tem a questão das marcas que lançam as coleções juntos com os desfiles, não esperam mais para vender daqui a seis meses…e isso acaba com o modelo do fast fashion . Ou eles se adaptam ou morrem. Estamos num momento de caos e de mudanças.

Quer saber mais sobre o Fashion Revolution em Portugal? Leia esse artigo

POSTS RELACIONADOS

Olabi oferece curso de moda e impressão 3D no Rio ...
views 1.3k
Já sabemos que a moda pode ter sua cadeia produtiva completamente transformada pelo uso de tecnologias como a de impressão em 3D, ganhando tempo e dinheiro. Tempo, porque esses equipamentos permitem a construção de protótipos rápidos, para testes de modelagens e mistura de materiais. E dinheiro, ...
Manifesto
views 97
Nós, da consultoria de pesquisa e curadoria de conteúdo Trendnotes, viemos por meio deste manifestar a necessidade de propagar a cultura slow fashion de forma circular e igualitária, despertando o interesse do tema em todas as esferas sociais. Entendemos que não se trata apenas de uma tendência, ...
Editorial: A tendência que vai além do que se vê...
views 280
Apresentamos o nosso projeto #SlowIsTheNewBlack A livre apropriação da letra da música não é à toa. Trabalhar em um campo tão vasto e sinuoso quanto o da pesquisa de tendências nos leva a caminhos ainda pouco explorados e em possível ascensão. Como um bom aprendiz de etnógrafo, o pesquisador, dur...
Trendnotes e Lupa lançam relatório sobre moda cons...
views 528
Cadeia de produção sustentável, baixo impacto ambiental, movimento maker, slow mood, valorização da mão de obra. Esses conceitos pautam o surgimento de uma nova relação entre criadores e consumidores com o fashion business e são o tema do trend report “New Couture: redesenhando o futuro da indústria...
Brechós 2.0: a garimpagem atualizada
views 1.2k
Bagunça, roupas espalhadas, cheiro de mofo. Se essa é a imagem que você ainda tem dos brechós, pode esquecer. Alinhado a valores como consumo sustentável, slow fashion e marketing sensorial, empreendedores encontram uma oportunidade transformadora de negócio nas lojas de itens de segunda mão. ...

Divulgado no TrendNotes por: Mariana Carvalho

Uma carioca com alma cigana. Viciada em viajar, sente-se em casa em qualquer lugar do mundo. Adora conhecer outras culturas e por conta disso, morou na Austrália, EUA e passou um tempinho na Ásia. Amante das artes, é fotógrafa nas horas vagas, e curiosa por vocação, além de acreditar em sincronicidade e se achar super entendida em astrologia.

já postou 74 vezes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *