Girias

Slangers – @s maiores influencers “não-influencers” do Rio

Como uma tribo carioca ajuda a disseminar uma identidade urbana própria através da linguagem. 🙂

O Rio de Janeiro ainda é a cidade brasileira que tem mais projeção internacional. São vários os fatores que contribuem para isso, entre eles, as telenovelas que, em sua grande maioria, são ambientadas na cidade e ajudam a propagar o carioca way of life. Nos últimos anos, esta fama de “tambor do mundo” esteve em maior evidência por causa dos grandes eventos mundiais. Não faltou gente bebendo dessa fonte: artistas, esportistas, empresários, marcas de moda, blogueiros ou os chamados influencers (para usar a palavra da moda), mas pouco se falou da força motora que propaga esse estilo carioca de ser: o povo. No sentido massivo da palavra mesmo, em referência à turma que é a força de trabalho e dá o tom da descontração carioca.

A maior característica popular? O linguajar especial, as gírias. Sempre oriundas das classes mais baixas, são termos que brotam, em teoria, de forma espontânea, mas uma busca mais aprofundada mostra que os “criadores” dos termos, fazem ligações inimagináveis entre palavras existentes e outras inventadas. Isso faz lembrar o que disse o jornalista Silvio Essinger, no livro “Batidão, uma história do funk”, ao ressaltar que isso pode apontar uma falência no sistema público educacional ou para o surgimento de uma nova língua. Provavelmente as duas coisas.

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Se o assunto for o surgimento de uma nova língua, a autoria deve ser atribuída à base da pirâmide. São os maiores influenciadores da linguagem da cidade, no entanto, os menos citados. E olhem, sinal dos tempos, gírias – historicamente – foram atribuídas à malandragem dos morros cariocas e, consequentemente, aos homens, mas com o advento da internet e do youtube, sobretudo nos últimos dias, o grande destaque de vídeos virais sobre o tema tem meninas e mulheres como protagonistas. Selecionamos algumas real influencers, que preferimos chamar de slangers.

“Gostosin no azeite” provavelmente é uma expressão já ouvida, nas últimas semanas, até pelo mais distraído dos cariocas. A autora é a adolescente TN Martins, que gravou o vídeo “Brota Xota”, narrando o que estava fazendo no momento da gravação e declarando seu amor por um rapaz, intitulado por ela como o “novinho do pastel”.

 

A linguagem usada torna a compreensão difícil para quem não pertence ao grupo, mas ela mesmo se encarregou de explicar:

Outro destaque é Jojô Marontinni, mais conhecida como Jojô Toddynho, em referência autoral e baseada em uma fala da personagem Terezinha (Cacau Protásio), do programa humorístico “Vai Que Cola”. A jovem carioca, de apenas 20 anos, ganhou fama no youtube ao gravar um vídeo de “autoestima involuntária” ao falar de sexo abertamente e do sucesso que seus grandes seios fazem. Recentemente a youtuber fez uma especialíssima participação em um dos clipes mais aguardados da cantora Anitta, o “Vai Malandra” e caiu nas graças do povo, além de ter assinado um contrato com a gravadora Universal para entrar no mundo do funk.

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Anitta e Jojo Toddynho

Lá pelos idos de 2012, uma das pioneiras em lançar vídeos e propagar suas gírias locais foi Luane Dias. A adolescente decidiu gravar um vídeo sobre etiqueta no Facebook e conseguiu ecoar sua verdade, ao ser convidada para integrar o time fixo do programa dominical “Esquenta”, na Rede Globo.

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A cidade é um celeiro de gírias, que normalmente cruzam as fronteiras (ou chegam até o asfalto) no verão. Para citar pouquíssimos exemplos nesse vasto universo da linguística urbana, já tivemos:

Comédia – quem tem o vício da vacilação

Deu ruim – quando alguma coisa não dá certo

Divar – brilhar

Embrasar – enlouquecer, atiçar

Fura olho|Talarico – quem cobiça ou dá em cima da mulher ou do homem de amigo.

Lelesques – versão moderna para o Menino do Rio

Mili mili – contração de “mileanos”, que significa “muitos anos”

Mulão|Bonde – grupo de pessoas, amigos

Norótico – contração de neurótico, cabe como elogio

Rabiscar – quem dança bem o passinho

Sarna – quem é vaidoso, se arruma bem

Transante – quem transa demais

As gírias historicamente estão ligadas ao público jovem, no Rio de Janeiro este tipo de linguagem é atribuído às massas, sem que a faixa etária seja colocada em evidência. Costuma ser ligada a determinados ritmos de música (primeiro o samba, depois o funk), por serem as músicas com maior projeção entre este público criador. O popular é o meio e o povo é a mensagem, ou vice-versa. O fato é que todo este repertório exalta uma das principais característica dos brasileiros: a criatividade.

Essa cultura deve – e já tem sido praticada por quem está um pouco mais antenado e livre de preconceitos – ser exaltada e levada à última potência para outras fronteiras, sobretudo, com esse atual protagonismo das mulheres e todas as questões de mudanças sociais e empoderamento que estão inseridas no contexto. Diversos elementos constroem uma cultura social, linguagem certamente é um dos principais, especialmente para revelar comportamentos.

A galera na gringa já está de olho há mileanos ;). Vamos valorizar nosso produto nacional? 

Tenhamos a mente, os olhos e ouvidos bem abertos e receptivos. Deixa “as garota brincar”! 

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Divulgado no TrendNotes por: Barbara Feitosa

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