Primavera das #hashtags

Ou: como as hashtags #PrimeiroAssedio, #AgoraÉqueSãoElas e #meuamigosecreto (entre várias outras) estão revolucionando o cenário feminista brasileiro.

A ideia de criar hashtags já não é novidade. Mas, nos últimos dois anos, um movimento espontâneo vem dando conta de propagar discussões de cunho feminista em todo o mundo. Somente no primeiro semestre de 2015, foram postadas, comentadas e compartilhadas as hashtags #heforshe (“ele para ela”), na qual que homens (incluindo celebridades como Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston e Mark Ruffalo) puderam falar abertamente sobre feminismo e declarar apoio à luta pela igualdade salarial e reprodutiva, #notguilty (“não culpada”, em tradução livre), em que vítimas de agressão sexual compartilharam sua história para lutar contra a culpabilização da vítima, e #askhermore, criada pelo grupo Miss Representation, cansado de ver mulheres celebridades falando apenas sobre vestidos e maquiagem, e nunca sobre suas carreiras ou projetos.

A atriz Reese Witherspoon postou a hashtag #askhermore minutos antes de pisar no tapete vermelho do Oscar 2015. (imagem: iStock)

Pouco divulgada por aqui, a hashtag #niunaamenos foi criada para divulgar a marcha Ni Una Menos, que aconteceu em junho, em Buenos Aires, para pedir o fim do feminicídio e da violência contra a mulher. O evento foi organizado pelo Centro de Estudos em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade Central de Buenos Aires.

E você ainda se pergunta: “feminismo pra quê?”

No Brasil, as hashtags #nãomereçoserestuprada (da jornalista Nana Queiroz, criadora da fantástica revista online AzMina) e #chegadefiufiu (disseminada pela ONG Think Olga) fizeram um certo barulho à época em que foram lançadas.

Mas nada comparado ao frenesi do #MeuPrimeiroAssedio (ou #PrimeiroAssedio, reação aos comentários machistas sobre Valentina, participante de 12 anos do reality show MasterChef Junior), que saiu do campo virtual, ganhou espaço na mídia (com direito a capas de revistas semanais de grande circulação) e em praticamente todas as discussões de mesa de bar, entre amigos, colegas de trabalho (etc, etc).

Alcance da (apenas) primeira semana

Ao mesmo tempo, a discussão foi tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM – ‘a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira’ - o que gerou uma infinidade de opiniões, novamente, do Facebook à reunião de família.

Questão sobre Simone De Beauvoir também fez barulho no ENEM

A discussão saiu do virtual e foi às ruas: a “Primavera das Mulheres“, na qual milhares de mulheres tomaram as ruas de cidades brasileiras em protesto contra o projeto de lei 5069, que modifica a lei de atendimento às vítimas de violência sexual e criminaliza propaganda, fornecimento e indução ao aborto e métodos abortivos.

Na primeira semana de novembro, foi a vez de #AgoraÉqueSãoElas tomar conta de blogs, sites, portais, jornais, colunas e redes sociais. Funcionou assim: mulheres são convidadas por homens a ocuparem seus espaços, com textos sobre questões tocantes ao feminismo.

Mais recentemente,  surge #meuamigosecreto (uma alusão irônica à brincadeira tradicional no período de fim de ano, na qual a pessoa dá dicas sobre quem é o amigo secreto que receberá dela um presente) para denunciar o comportamento opressor e atitudes machistas disfarçadas de “senso comum” ou “brincadeira”. As mensagens falam desde aquele amigo que parece ser bacana, mas faz comentários estúpidos em relação às colegas de trabalho, até agressões verbais e físicas.

Alguns exemplos (via Revista Galileu):

#MeuAmigoSecreto adora pagar de defensor das mulheres, mas não perde a oportunidade de enquadrá-las no padrão ou chamá-las de loucas”, escreveu outra. 

#MeuAmigoSecreto vive compartilhando posts feministas no facebook mas é o primeiro a rir de piada machista da rodinha

#meuamigosecreto trai a esposa, mas diz que não larga pq nenhuma chega aos pés da mulher que arruma a casa e deixa a roupa passada pra ele

#meuamigosecreto fez a ex-namorada se sentir um lixo, inútil e deprimida, e depois que terminou, a acusou de traição

#meuamigosecreto é contra o aborto por ser a favor da vida mas é a favor da redução da maioridade e diz que bandido bom é bandido morto

#meuamigosecreto não quer usar camisinha porque ‘não dá pra sentir nada’

No entanto, há quem diga que muitas postagens do #meuamigosecreto tenham descambado para outras questões - ou mesmo para a seara de indiretas de redes sociais. A verdade é que esses movimentos surtiram efeito: o número de relatos de violência contra a mulher pelo 180 foi 40% maior de janeiro a outubro deste ano comparado com o mesmo período do ano passado.

Mais do que desabafos e catarses, essas hashtags lançam luz às questões pelas quais a mulher passa, propondo reflexões sobre violência, sociedade, empoderamento femininodiversidade. Todos os assuntos que se resumem em libertação da mulher e a necessidade de uma mudança estrutural e cultural na nossa sociedade diante das discussões de gênero.

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Divulgado no TrendNotes por: Carolina Landi

Jornalista carioca com alma de artista e bailarina nas (poucas) horas vagas. Gosta do pop ao erudito, em todos os sentidos e artes. Acredita em empatia e sincronicidade. Curiosa, quer viver várias vidas nessa existência.

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