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Preta Lab: a transformação social-étnico-digital

Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil. É no segundo andar de uma casa numa rua sossegada de um dos mais criativos bairros da cidade que estão sendo mapeados dados importantíssimos para o futuro do país. Não, não é exagero!

No número 12 da rua Martins Ferreira está localizada a sede do Olabi Makerspace, que existe  com o apoio da Fundação Ford, é um espaço social de criação e aprendizagem interdisciplinar focado em tecnologia, onde as pessoas compartilham ferramentas, máquinas e conhecimentos, tendo seus desenvolvimentos de projetos e protótipos estimulados através do digital. 

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Ou, nas palavras de Ana Carolina Da Hora, “um espaço que permite que as pessoas tenham acesso à tecnologia de alto e baixo custo, onde elas acabam aprendendo a aproveitar os recursos que elas têm”. “A primeira vez que eu vim me impressionou pelo quanto ela se aproximava da minha realidade. Aprendi a fazer as coisas com o que eu tinha em mãos e ter contato com pessoas que são conhecidas e viraram pessoas com quem eu converso abertamente pessoal ou virtualmente de igual para igual. Eu gosto exatamente disso!”, diz a pesquisadora. 

Pois bem, não bastasse todo esse diferencial, o local ainda abriga uma das iniciativas mais originais do mundo. Senhoras e senhores, com vocês, a PretaLab.

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Idealizado pela jornalista, maker e Diretora de Programas da casa, Sil Bahia, a PretaLab é uma iniciativa na área de Inovação e Tecnologia pautada em dois princípios: mapear as mulheres negras e indígenas que estão trabalhando|atuando com tecnologia e inovação; e buscar dados com cruzamento de gêneros e raças para fazer um recorte racial e interseccional. O objetivo é protagonizar essas meninas nesta área como uma forma de redução da desigualdade no país.

Barbara Feitosa (Trendnotes), Sil e Ana Carolina DaHora
Barbara Feitosa (Trendnotes), Ana Carolina DaHora e Sil Bahia (da esq. para a dir.)

Sil começou a flertar com a área de novas tecnologias em 2014, na ocasião era da equipe de comunicação do Observatório de Favelas e participou da “Rodada Hacker”, uma oficina de programação para mulheres, oferecida na Arena Carioca Dicró, na Penha.

“Sempre me achei das Humanas e que nunca poderia programar ou flertar com as Ciências Exatas. Só que eu descobri que poderia adentrar este mundo. Me senti muito empoderada porque realmente não achava que pudesse fazer esse tipo de coisa. A partir de 2016, comecei a circular muito nestes espaços, e notei que existe uma grande ausência de mulheres. Ao procurar negros, então, era impossível encontrar. Aqui no Olabi (Sil entrou em 2015), compartilhava essa inquietação com minha equipe, sobre estimular e trazer mulheres negras para este universo”.

Foi em 2016, ao ser convidada para falar sobre comunicação, por conta de seu trabalho em “K-bela” e “Afroflix”, no Festival Latinidades – festival de valorização cultural, política e social das mulheres negras – a jornalista viu que podia tirar do papel seu projeto de juntar mulheres negras tech. Mas não foi tão simples. “Queria um hub sobre troca de saberes e tecnologia, mas quando eu procurei mulheres neste perfil para se juntar a mim, vi que éramos poucas e, por isso, eu precisava mudar a estratégia e capacitar as pessoas primeiro”. Assim surgiu a ideia da PretaLab.

Mas por quê somente negras e indígenas?

Tudo dito até agora, somado à História do Brasil, ainda que nem sempre contada em detalhes, já seria o suficiente para responder. Mas o site da iniciativa apresenta números mais do que justificáveis para esta busca de equidade:

  • 19 mulheres foram citadas na história da ciência no Brasil pelo CNPq, nenhuma é negra.
  • 4% é a porcentagem de negras entre as fundadoras de startups de tecnologia comandadas por mulheres nos EUA.
  • 10 é o número de mulheres negras que a Escola Politécnica da USP formou em 120 anos.
  • 130 anos após a Abolição da Escravatura e as mulheres negras ainda ocupam a base da pirâmide nos piores índices.

E outros dados tão assustadores – como o de que uma em cada três meninas e mulheres indígenas são violentadas, pelo menos uma vez (!) ao longo da vida, segundo relatório da ONU -, podem ser citados. Ou seja, são duas etnias desmoralizadas (para dizer o mínimo) e que merecem reparação e atenção especial. Para tal, a PretaLab quer coletar esses dados por todo o Brasil, sobretudo nas regiões norte, nordeste e centro-oeste, para não se limitar aos grandes centros nacionais. O mapeamento quer buscar meninas que usem a tecnologia para diferentes fins, não só dentro da área de ciência da computação. “Englobamos a pesquisa também querendo mapear quem produz conteúdo: jornalistas, vlogueiras, audiovisual, fotografia…”, informa Sil Bahia.

A rede de sororidade vai além do mapeamento

É importante frisar que a PretaLab não é um curso, é uma iniciativa para gerar referência a partir de exemplos, ciclos de palestras e dados embasados. Dentro desse mix, existem oficinas em parceria com outros coletivos, todas gratuitas.

Outra forma encontrada para expandir o conhecimento, foi criar uma série de 10 vídeos (de 1:30) como forma de inspiração para outras meninas do mesmo gênero e raça. Sim, o feminismo já existe, mas as mulheres não são todas iguais. “É complicado olhar apenas por um viés, a gente entende que se não se tem dados sobre essa questão de forma interseccional, sobre essa atuação, fica muito difícil influenciar qualquer política pública voltada para este assunto”, diz Sil Bahia.

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Ana Carolina DaHora

Os vídeos, que serão lançados em breve na web, contam com mulheres influenciadoras de peso como: Ana Carolina Dahora (Olabi), Celeste de Brito (Luluzinha Camp), Fernanda Lira Monteiro (Maria Lab), Gabi Oliveira (De Pretas), Glória Maria Eloísa (PUC Rio), Maria Rita Casagrande (desenvolvedora), Monique Evelle (Desabafo Social),  Sil Bahia (Olabi), Vitória Lourenço (Data Lab) e Viviane Gomes Rodrigues (Criola).

Impacto positivo

A iniciativa tem como foco atual compilar os dados e divulgá-los até o próximo dia 25 de julho (dia da mulher negra latino americana e caribenha), para a partir daí pensar nos próximos passos. Mas quando questionada se já existe algum legado da PretaLab, Sil Bahia responde com o coração e com a propriedade de quem sabe o que está dizendo.

“Uma possibilidade de acreditar que você pode ser aquilo, sabe? No fundo, a gente quer gerar referência sobre ser mulher negra neste universo das tecnologias. Só que quando a gente olha pro lado, a gente nunca vê ninguém igual a gente, né? É difícil você querer ser alguma coisa, se não tem ninguém parecido com você sendo aquilo. A PretaLab vem muito nessa pegada de empoderar (embora pareça um conceito vazio, não é. Trata-se de uma construção diária), mas no fundo queremos inspirar outros projetos e meninas para considerarem este universo como mais uma possibilidade para suas vidas.

As profissões que mais vemos mulheres negras trabalhando é a de domésticas, diaristas… é meio predestinado. Sair do lugar comum é um esforço de várias frentes. A primeira frente talvez seja acreditar que você pode sair desse lugar. Isso é feito com exemplos, através de referências, memórias…e hoje toda a cultura digital, por mais que não tenha diminuído a questão da desigualdade, possibilitou novas narrativas e narradores. Então, nós inspiramos meninas, mulheres e outros projetos que possam surgir”.

Que surjam muitos!

Em tempo: meninas|mulheres negras e indígenas que trabalham com audiovisual, conteúdo, programação e tudo mais que envolva tecnologia, o mapeamento da PretaLab está na reta final de coleta de dados e você ainda pode responder! Acesse: www.pretalab.com e participe desta iniciativa super bacana 😉 #gogirls #grlpwr

Por Bárbara Feitosa

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