A invenção da quarta idade

A colaboradora Nina Spinardi escreve sobre essa nova fase: dos desafios da ciência em relação ao aumento da expectativa de vida aos novos padrões de consumo e estilo que a turma dos 80+ tem disseminado na web.

Se a esperança é a última que morre, então ela finda cada vez mais tarde, a ponto de os cientistas criarem uma nova classificação teórica de faixa etária: a quarta idade.

Essa nova fase se consolidou com o aumento da expectativa de vida para além dos 80 anos. A partir daí, passou a receber atenção dos cientistas e do mercado consumidor, que hoje se vêem desafiados a acompanhar essa mudança de paradigma. Tornou-se também uma obrigação ética na agenda social do país a formulação de políticas públicas que atendam a essa questão de forma preventiva.

Junto com essa conscientização social, a área da ciência, que antes pesquisava formas de melhorar a qualidade de vida da terceira idade, agora tem que se desdobrar para descobrir o que se pode fazer e o que se deve evitar para que nós tenhamos não só longevidade, mas sim, passar dos 80 anos conseguindo atenuar as limitações da idade e viver na melhor forma física e mental.

Paul B. Baltes, co-diretor do Max Planck Institute for Human Development, em Berlim, e um dos nomes mais importantes da Psicologia e da Gerontologia na atualidade afirma que “a investigação sobre a Quarta Idade é um território novo e desafiador”.

Em seu artigo “Novas fronteiras para o futuro do envelhecimento: da velhice bem sucedida do idoso jovem aos dilemas da Quarta Idade”, publicado pela revista “Gerontology”, Baltes fala sobre o limite da capacidade funcional na qual pessoas de mais de 80 anos se encontram, sendo elas a perda de identidade, de autonomia psicológica e de senso de controle e de como isso torna essa faixa etária tão vulnerável aos agentes sociais externos.

O que chamamos de terceira idade é a velhice inicial (o idoso jovem), aquela na qual, se levada uma vida saudável e sem grandes traumas, a pessoa consegue viver com significativo conforto e bem-estar emocional e pessoal. Nos vem à cabeça aquela imagem típica de cartaz de agência bancária, onde um sorridente casal de seus quase 70 anos, toma uma água de coco na praia e goza de sua aposentadoria.

A quarta idade chega com menos sorrisos e mais desafios, pois é a partir dela que o período da velhice se torna mais perigoso. É por volta dos 80 anos que a maioria começa a perder o potencial cognitivo e aumenta-se a fragilidade física.

No artigo de Baltes, pesquisas mostram uma realidade não muito animadora sobre a quarta idade, principalmente para as mulheres, que compõem a maior parte dessa realidade: a são viúvas e vivem sozinhas ou em instituições, sofre hospitalização em algum momento dos últimos anos da vida e morre sozinha num hospital ou numa instituição.

É uma cenário aterrador, mas assim como a longevidade humana vem aumentando, esse novo grupo de seus 70 e tantos também possui integrantes que não deixam o peso físico da idade pesar.

Com os avanços das técnicas científicas, tanto de tratamentos médicos e estéticos quanto de prevenção e uma preocupação crescente com seu processo de envelhecimento, as pessoas buscam se alimentar melhor e desenvolver atividades físicas e intelectuais, para não deixar a peteca cair.

Para o mercado de produtos e serviços, trabalhar esse gancho é uma oportunidade de sucesso garantido. Atender a uma nova demanda de um público que, diga-se de passagem, possui um nível de exigência tão alto quanto a sua idade, é não só um desafio, mas também o nascimento de um novo nicho de mercado que pode ser muito lucrativo.

Algumas redes de academia no Brasil vem investindo em pacotes para os idosos. A Bodytech, por exemplo, oferece o Programa Care, que consiste em um treino de musculação montado pelos profissionais da academia que atenda às necessidades do alunos com idade avançada.

Estilo maduro

Criado em 2008 pelo fotógrafo Ari Seth Cohen, após o sucesso de seu livro Advanced age, o blog de street style homônimo é hoje uma das maiores referências de tendências e inspiração no mundo da moda. Pelas ruas de Nova York, Cohen tira fotos de homens e mulheres que dão um show de ousadia e estilo. Todos, claro, com mais de 60 anos de idade.

Os personagens achados pelas ruas de Manhattan definitivamente nos ensinam a lição do que é estilo, pois o que se vê no blog vai muito além de tendências comerciais de moda. Vemos e aprendemos que o estilo não se apaga conforme vamos ganhando idade. Pelo contrário. Os anos vividos nos dão o auto-conhecimento para seguirmos nosso próprio estilo com confiança e liberdade e assim sermos verdadeiramente ousados.

Através de um crowdfunding (financiamento coletivo na internet) o blog de Cohen deu origem a um documentário, aqui no Brasil traduzido como Advanced Age - Vovós Fashion (disponível no Netflix). Idealizado por Cohen e dirigido por Lina Plioplyte, o filme relata a intimidade de sete mulheres absurdamente estilosas da 3ª e 4ª idade, que em um mundo onde a juventude se tornou uma obsessão, mostram aos espectadores que a idade não é nem de longe, um empecilho para podar seus estilos de vida ecléticos e autênticos.

Aqui, algumas das senhoras (e senhores) retratadas(os) por Cohen (retratado na primeira imagem) para o Advanced Style:

Sim, tem muita ”setentona” e ”oitentona” esbanjando vida, lucidez e (por que não?), sex appeal. Algumas de nossas ídolas da 4ª idade:

 Carmen Dell’Orefice

Aos 84 anos, e há 71 anos trabalhando como modelo, a novaiorquina Carmen Dell´Orefice é musa tombada! A sensação que dá é que ela será musa da 5ª, da 6ª idade…Gente, é muita beleza! Além de ser chiquérrima.

Carmem na capa da “Harper´s Bazaar” em 1958.

 

Linda Rodin

“Você não pode perseguir a juventude: vai parecer muito mais velha do que realmente é, com uma cara toda esticada”, disse Linda Rodin, que possui sua própria marca de cosméticos – a Rodin Olio Lusso – faz fotos para editoriais de revistas, e também atua como stylist.

Iris Apfel

Empresária, designer de interiores e genuíno ícone da moda, a norte-americana ganhou espaço sob os holofotes na última década graças a sua autenticidade e ao seu inconfundível estilo colorido. Entre 2005 e 2006, foi tema da exposição “Rara Avis: Selections from the Iris Barrel Apfel Collection”, que aconteceu no Metropolitan Museum; em 2007, apresentou peças de seu guarda-roupa para o livro “Rare Bird of Fashion: The Irreverent Iris Apfel”. Iris conta hoje com impressionantes 94 anos. “Envelhecer não é para maricas”, disse, em sua frase já clássica.

(Imagem: Pinterest e Advanced Style)

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Divulgado no TrendNotes por: Nina Spinardi

Apaixonada por Jornalismo Televisivo e por escrever, está cursando Jornalismo na FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso) e técnico de Apresentação para TV na Escola de Rádio Ruy Jobim.

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